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  • Foto do escritorCarlos Fernando

Projeto de Restauro - Igreja Santa Cruz dos Militares

História da Irmandade de Santa Cruz dos Militares, no Rio de Janeiro.


A Irmandade de Santa Cruz dos Militares, fundada em 14 de setembro de 1623, possui uma das mais belas igrejas daquela Cidade, situada na Rua 1º de Março, nº 36, no local do antigo forte denominado Santa Cruz, construído em 1605, pelo Capitão Martim de Sá, então Governador do Rio de Janeiro e primeiro Provedor da Irmandade.


Sua origem remonta ao desejo dos oficiais e soldados do Forte de Santa Cruz, que se erguera no local, e ali edificarem uma Ermida onde os militares pudessem ser sepultados, tendo concretizado tal desejo em 1628 - berço histórico da Irmandade e de sua lgreja.


Com grande solenidade em 10 de setembro de 1780, foi lançada a pedra fundamental do atual edifício da Irmandade, sendo a obra concluída só 31 anos mais tarde. Assim, em 28 de setembro de 1811 foi ela inaugurada com missa solene, na qual compareceu o Príncipe Regente D. João, que na ocasião recebeu o título de seu Protetor.


A ISCM por duas vezes foi considerada "Imperial": a primeira por D. Pedro I, em 3 de dezembro de 1828, e a segunda vez em 1840 por seu filho D. Pedro II os quais se declararam, como o fizera o Rei D. João VI, seus Protetores.


A Igreja é um dos exemplos mais vivos da influência da arquitetura italiana, sendo os trabalhos de entalhe das paredes laterais do altar-mor ricas obras em talha do Mestre Valentim, representando o martírio de Nosso Senhor e troféus e instrumentos militares.

Por Decreto-Papal, em 15 de abril de 1923, Pio XI agregou a Igreja da Cruz dos Militares à Sacrossanta Basílica do Vaticano, em Roma.


A HISTÓRIA DA IRMANDADE


No passado, as Irmandades de militares foram instituições fundamentais da estrutura social e política de Portugal. Tiveram caráter marcante corporativo e importância decisiva na reconquista do território ocupado pelos mouros e na formação do Estado Português.

Esta tradição teve continuidade no Brasil-Colônia, embora despida do fundamento épico que distinguia as ordens militares da península.


Os oficiais e praças da 1ª Guarnição do RJ reuniram-se, e decidiram formar uma irmandade construindo uma capela tendo ao seu redor um cemitério. O local escolhido foi as ruínas de um forte construído por Salvador Correia e Sá, Capitão-mor e Governador da Capitania do RJ, no ano de 1585 com a finalidade de reforçar a ação dos outros fortes existentes na Baía de Guanabara.


A capela, entretanto, só foi começada em 1628, pois os militares precisavam organizar os rendimentos para sua sustentação. Reuniram-se na forma legal duma irmandade religiosa, contribuindo os oficiais, com cem réis, os sargentos com cinqüenta e os praças com vinte.

Convocados em assembleia, elegeram para dirigir a irmandade o Capitão-mor Martim Correia de Sá, filho de Salvador Correia de Sá, com o sugestivo título de juiz, pois a ele caberia julgar todos os fatos decorrentes desse Estado.


O Templo foi então batizado com o nome de Capela de Santa Vera Cruz, e a confraria, em nome de Irmandade da Santa Cruz dos Militares.


No dia 1º de novembro de 1700 os militares que ali residiam resolveram adotar como orago N. Sª da Piedade para cobrir com sua proteção todos os que ali repousassem ou a ela recorressem.


Foi o templo, durante quatro anos, a Igreja-Mãe da Diocese do Rio de Janeiro, abrigando-se ali a Catedral de 1734 a 1737.


No primeiro dia de setembro de 1780 começaram a reconstrução da igreja com o lançamento da pedra fundamental. Os trabalhos foram terminados em outubro de 1808 com grande solenidade em que compareceu, o Príncipe Regente D. João, que houve por bem aceitar o título de Protetor da Irmandade da Santa Cruz dos Militares.


Várias reformas foram feitas na igreja, uma delas realizando-se em 1870, sendo irmão Provedor o Marechal Luís Alves de Lima e Silva, Duque de Caxias.


No século XX, a Irmandade sofreu reformas para conservação do seu patrimônio, ocorrendo a última na gestão do Irmão Provedor Coronel Ary de Aguiar Freire, concluída em 1998.

A Irmandade foi por duas vezes considerada Imperial: a primeira, por Dom Pedro I, no dia 3 dezembro de 1828 e a segunda no ano de 1840 por seu filho, o Imperador . Pedro II, que se declararam, assim como fizera o Rei Dom João VI, seus protetores.


O Museu Sacro-Militar da Irmandade da Santa Cruz dos Militares que está instalado do lado esquerdo do prédio da igreja foi inaugurado em 27 de janeiro de 1966. Tudo em seu interior, várias imagens, vestes eclesiásticas, fotos, condecorações, toucheiros e etc, constitui um acervo precioso.



HISTÓRIA DA IGREJA


A peculiar fachada, diversa de outras da cidade no mesmo período, parece ter obedecido a concepção geral de Sá e Faria. Ao invés dos recurvados típicos da tradição barroca e rococó, o frontão apresenta uma rígida forma triangular sobre o corpo central, que se une por aletas em volutas elegantes e discretas, aos corpos laterais.


Esta inspiração vem da fachada da Igreja do Gesú, em Roma (concebida por Vignola e redesenhada por Della Porta), ou de tantas outras dela derivadas, como a da Igreja de S. Felipe Néri, também em Roma, ou a dos Santos Mártires, em Lisboa.

Igreja de Gesu, em Roma.

Além do modelo jesuítico, de suas proporções gerais e do pórtico de colunas jônicas que sustentam a varanda-sacada do janelão do coro, a modenatura da fachada parece retomar a linguagem arquitetônica do Maneirismo evidenciada no uso de pilastras geminadas e adossadas a outras pilastras (nas divisões dos corpos laterais), superpostas em diferentes ordens (nos dois níveis do corpo central) e continuando-se pelos pináculos que as encimam.


A planta prende-se ao tipo tradicional, dominante no século XVIII, de nave única com corredores laterais, capela-mor profunda e altares adoçados às paredes.

Planta Igreja de Gesu, em Roma


Toda a decoração interior - realizada por Mestre Valentim e Antônio de Pádua e Castro - é de talha, inclusive as pilastras compósitas e os entablamentos que dividem a nave em três segmentos verticais e três horizontais.


Nos três retábulos da igreja, sob a invocação da Santa Cruz, de Nossa Senhora das Dores, a esquerda da entrada, e de São Pedro Gonçalves, a direita, foram abandonadas as antigas colunas salomônicas usadas em outras igrejas da cidade. Mestre Valentim introduziu colunas de um tipo semelhante ao vanviteliano, com pequenos cordões florais por entre arestas e caneluras dos fustes retilíneos. Sua intenção pode ter sido a de integrar melhor a concepção decorativa da tradição rococó à severidade da fachada de Sá e Faria. A divisão do intradorso da abóbada, acompanhando os três segmentos parietais, revela a mesma ideia: a de um rococó mais discreto, sabiamente harmonizando elementos, mais clássicos.


Essas colunas apoiam-se em mísulas sobre plintos tipicamente rococós e sustentam arranques de frontões de arco segmentado , complementados acima, com símbolos e resplendores emoldurados por arcos contracurvados. No altar-mor, estátuas de anjos apóiam-se nos elementos arquitetônicos do retábulo e o coroamento invade a curvatura da abóbada.


Na reforma de 1853, Antônio de Pádua e Castro "completou" as áreas menos decoradas por Valentim. Além de revestir o vestíbulo com painéis representando as armas do Império e troféus militares, tornou o coro mais exuberante e abriu portas para os corredores no primeiro segmento parietal, encimando-as com painéis onde se veem as condecorações portuguesas e as instituídas no Brasil.


Embora seu trabalho seja de grande qualidade e beleza, e não fuja essencialmente da linguagem formal do rococó, Pádua e Castro diversificou os motivos florais originais e o repertório de rocalles, entalhou os relevos com um peso plástico maior do que os de Mestre Valentim e, com o preenchimento das áreas "vazias", criou uma espécie de "barroquismo", desfazendo a concepção original de progressiva acumulação decorativa.


Embora atribuída a Valentim, a bela porta de jacarandá da entrada é provavelmente obra de Pádua e Castro (como as interiores), uma vez que, na aquarela de Richard Bate de 1820 ela aparece almofadada - o que seria mais adequado a uma fachada de inspiração jesuítica.

Aquarela de Richard Bate


Dentre as preciosas imagens de devoção da igreja, a estátua de São Pedro Gonçalves, tendo um barco em uma das mãos, é provavelmente a mais antiga, pois sua atitude frontal, seu volume compacto e seus panejamentos retilíneos traduzem a linguagem estilística do maneirismo.


A imagem de Nossa Senhora das Dores é de roca, tipologia que consiste na cabeça e mãos montadas a uma estrutura de madeira oculta por um manto de veludo. Este tipo de escultura e a dramaticidade do rosto sugerem obra ibérica, hispânica ou portuguesa.


A imagem do Senhor Morto é exposta em uma urna sob a capela-mor, e a Nossa Senhora da Piedade, dentro de um nicho no topo do trono do altar-mor. Ambas parecem proceder dos modelos criados por Gregório Hernández, o maior escultor espanhol das primeiras décadas do século XVII, e que realiza transição do Maneirismo ao Barroco.


Entretanto, excetuada a forma do vão da porta central em arco pleno, as molduras dos demais, incluindo as duas portas de acesso aos corredores laterais, os quatro nichos e o, janelão do coro, assim como os balaústres, e os pináculos, derivam de modelos barrocos e rococós.

Registra-se essa combinação de diferentes elementos como "estilo pombalino", presente em grande parte das obras realizadas no mundo luso-brasileiro, a partir dos modelos criados na reurbanização de Lisboa, após o terremoto de 1755, sob a administração do Marquês de Pombal. Como uma das primeiras expressões deste momento de transformação, a Santa Cruz se reveste de uma importância que transcende os limites da cidade, inserindo-se como um marco na historia da arquitetura realizada no Brasil.


As quatro estátuas de mármore de Carrara que ocupam os nichos, representando os evangelistas, foram encomendadas na Itália, em 1926, substituindo as de madeira realizadas por Mestre Valentim, então muito danificadas, atualmente no Museu Histórico Nacional.


Em 1923, um incêndio destruiu o retábulo do altar-mor - uma das obras-primas de Mestre Valentim. Na reforma de 1924, reproduziram-no em cimento, o mais fielmente possível, a partir de fotografias.


Escombros após o incêndio de 1923 (Fonte: Arquivo Noronha Santos – IPHAN)

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