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  • Foto do escritorCarlos Fernando

Projeto de Acompanhamento - Museu de Arte Religiosa Tradicional

1.1 HISTÓRICO


As primeiras notícias sobre o prédio que abriga o Museu de Arte Sacra e Tradições, de Cabo Frio, provém do “blog[1] que a Irmandade, (Venerável Ordem Terceira da Penitência de Cabo Frio) que também ocupa parte da edificação, mantém na INTERNET.


Segundo esta fonte:


O Convento de Nossa Senhora dos Anjos, em Cabo Frio, data de 1696. Surgiu da vontade dos primeiros moradores desta cidade, que no dia 01 de abril de 1617 fizeram ao governador Estêvão Gomes, uma petição de um sítio para os franciscanos construírem um convento.
Em 13 de janeiro de 1696, inaugurado o convento, Frei Cristóvão da Madre de Deus Luz deu posse ao seu primeiro guardião Frei Serafino de Santa Rosa, seguido por Frei João de Santo Antônio e mais 63 frades que dirigiram este convento até 1872.
Após ter recebido do Governo o terreno anexo ao Convento, a Ordem III iniciou as obras das catacumbas, com a pedra inicial lançada em 08 de dezembro de 1841, às cinco horas da tarde.
Depois das obras das catacumbas em 1841, somente em 1859 foram executadas as obras da sacristia e do aumento da capela da Ordem III, com o assentamento da primeira pedra no alicerce.
O fim das obras do aumento da Capela de São Francisco foi anunciado pelo ministro encarregado, constando em ata da Ordem III, datada de 20 de julho de 1862.
Com a morte do último frade guardião (1872), a Ordem III assumiu automaticamente na medida do possível a ocupação da Igreja e torre do Convento, visto que as celas já não havia meio de recuperar. Isso ocorreu por volta de 1880. Foi criada a Irmandade de Nossa Senhora dos Anjos, para junto com a Ordem III conservar a Igreja e o que mais pudesse.
Consta que em 1917 houve um assalto com arrombamento na sacristia da capela de onde foram levados paramentos e objetos de uso litúrgico, avaliados na época em cinquenta contos de réis. Consta também um atentado com explosão, e depois disso o convento novamente esteve decadente, ficando em ruínas.

Foto do conjunto, anterior à restauração, podendo-se observar a ausência do segundo pavimento na ala esquerda (à direita da imagem), assim como a inexistência de sua cobertura e do copiar na entrada. (fonte INTERNET – FACEBOOK , do perfil mantido pelo MART.

Observe-se o interior da edificação, quando de seu estágio de arruinamento (Fonte: idem)

Nesta imagem, pode-se avaliar, exatamente as porções do imóvel, anteriores à reconstrução (Fonte:idem)

Imagem bastante semelhante à anterior, porém, já se podendo observar o início das ocupações irregulares, atrás do conjunto e no sopé do Morro da Guia. (Fonte idem)

Nesta imagem, podendo-se avaliar o que foi o conjunto urbano da cidade, do Morro do Guia até a Praia do Forte, vale observar que, enquanto a ala esquerda do da edificação ainda se encontrava em ruínas, o alpendre do cemitério já se encontrava erguido

(Fonte: idem)

Imagem realizada, possivelmente, de meados da década de 1960, quando o convento ainda não foi reconstruído, porém recebeu algum tratamento na fachada, valendo observar que ainda não existe o copiar refeito, nem o segundo pavimento reedificado, na ala esquerda. (Fonte: Gardel, 1969, pg 65)


Há relatos[1] de que a explosão, relatada pela publicação da Ordem Terceira, tenha ocorrido entre 1940 e 1950, quando as ruínas da edificação eram usadas como depósito de explosivos, utilizados no desmonte das elevações onde se encontram as cabeceiras da Ponte Feliciano Sodré para facilitar o trânsito.


Segundo Gomes Júnior, nessa época, a ponte só possuía uma pista, pelo que dependia de um sinaleiro para liberar o trânsito, alternando os sentidos do fluxo viário.


Principalmente, no lado do Morro da Guia, ocorria estrangulamento na chegada, dificultando ainda mais a manobra em 90 graus, para acessar a ponte, que só seria duplicada algumas décadas depois, em 1982, como mostra o folheto distribuído à população, convidando-os para a inauguração.

Ponte Feliciano Sodré, em foto de Wolney Trindade s/d

A mesma ponte, em foto retocada. Fonte: Álbum de propaganda turística, exemplar sem capa ou referência, circa 1940


Em meados da década de 1960, o IPHAN, considerando“ ... a necessidade de assegurar uma vigilância e assistência efetiva aos remanescentes do primitivo convento de Santa Maria dos Anjos...”, conforme as palavras do arquiteto que deu prosseguimento ao intento, Edgard Jacintho (Finageiv, 1984) deu a adapt ação das ruínas para abrigar o museu.


De acordo com as palavras do próprio autor do projeto, decidiu-se pelo:


“... reaproveitamento das últimas paredes do corpo principal, seguindo da reconstrução desta fachada interna, da reposição do telhado e do copiar da entrada (...) mantendo, além do mais o detalhe do emparedamento dos vãos de janela da fachada principal, como lembrete do estado próprio da ruínas.”, acrescentando que “tudo revertido de documentação iconográfica hábil”, como exemplo, acrescentou-se à entrevista, cópia da litogradia de autor desconhecido impressa na Oficina Heaton & Rensburg, em 1845, que a se tomar como verdadeira, o Convento há de ter sido muito maior do que atualmente soe ser, após a reconstrução.

Foto mostrando o convento após a reconstrução (Fonte – MART, op. Cit)


De fato, comparando-se as duas imagens, pode-se observar que, na litografia, os dois contrafortes, ainda existentes, encontrar-se-iam no trecho médio da fachada, o que não parece razoável, quando se observam as fotos onde as ruínas aparecem claramente.


De toda forma, tanto as imagens, como a entrevista de Jacinto permitem estabelecer exatamente os trecho do imóvel que foram reconstruídos recentemente e aqueles que remontam aos anos de criação e afirmação do Convento, até meados do Séc. XIX, quando se dá o seu arruinamento.

1.2 ASPECTOS FUNDIÁRIOS


Não se obteve documentos comprobatórios de posse ou alvará de localização da unidade museológica, no entanto, é sabido que o imóvel não é próprio da União, sendo a ocupação do Museu possibilitada por ato de Comodato com a Mitra Diocesana de Niterói, que detém parte do conjunto edificado.

Contígua a esta, encontra-se a Capela e Cemitério da Ordem Terceira, que, em verdade, junto com o MART compõe a mesma estrutura arquitetônica.

Este quadro provém de questões históricas, já apontadas acima, mas detalhada a partir de artigo de Dolores Brandão Tavares, ex Diretora do Museu, do qual se retiram as informações a seguir:

Segundo Tavares, a doação do terreno aos franciscanos data de 1° de abril de 1617, vale dizer, a exatos 400 anos, e foi lavrada no Livro de Notas e Datas da Sesmaria, que acrescenta:

Após a morte do último guardião, frei Vitorino de Santa Felicidade, em 1872, o imóvel foi entregue aos cuidados do síndico nomeado pelo provincial”, o que não impediu o arruinamento do imóvel. (Finageiv, 1984)

Em 12 de março de 1968, foi firmado convênio entre a Diocese de Niterói e a Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, sendo que em 1957, o imóvel já havia sido tombado pelo mesmo SPHAN (Serviço, à época).

Em agosto de 1972, novo documento é assinado, ampliando o Termo de Cessão para incluir ao acervo tombado “várias peças de valor histórico e artístico nas quais se destacam as esculturas em madeira policromada e terracota dos séculos XVII e XVIII” (Tavares, op cit)

Em resumo, há que se enfatizar que o Comodato entre o órgão de preservação e a Mitra Diocesana, completará 50 anos, no ano que vem, e segundo relatos, a confirmar, estaria por expirar.

Vale ressaltar o fato de que metade do imóvel é ocupado pela Ordem Terceira, como já se viu, o que traz, se não problemas de ordem cartorial, já que um condomínio é um regime de posse bastante comum, em termos de manutenção do MART é assunto de preocupações constantes, podendo-se dar como exemplos o combate e prevenção de sinistros, a ação de xilófagos ou o controle de acessos.

Especificamente, houve relato da equipe de que o controle de bombas do sistema de combate a incêndios fica no setor ocupado pela Ordem leiga.


1.3 INSERÇÃO URBANA


O MART, como já se viu, encontra-se em área de intensa passagem para a cidade de Cabo Frio, estando próximo à uma das cabeceiras da ponte Feliciano Sodré, cuja construção teve tanta influência no seu estado de conservação...

O sistema viário preservou-lhe um largo generoso à sua frente, que o separa do centro comercial da cidade pela Rua Itajurú, logradouro de grande circulação de veículos, inclusive numerosas linhas de ônibus municipais e intermunicipais.

Este movimento veicular não é condizente com as facilidades para a sua travessia por pedestres, embora conte com um sinal, que como se nota na foto abaixo, encontrava-se, desligado, ou defeituoso, valendo observar a cidadã parada entre as duas pistas.

A vizinhança do centro atrai veículos, e ao longo da via do largo organizou-se um estacionamento rotativo que em nada contribui para uma boa visada do conjunto arquitetônico:

Retornando ao artigo de Tavares, já citado, é curioso pensar que no ato de doação do terreno para a construção do Convento, constasse “da petição, que ninguém poderia construir casa no monte Tairu, depois Itajuru (hoje morro da Guia)”, pois como já se viu nas imagens do item que tratou do Histórico, as ocupações irregulares vizinhas ao MART vêm crescendo em número e tamanho, como se pode notar nas fotos seguintes.

1.4 DESCRIÇÃO DO IMÓVEL

Lançando-se mão do vídeo, produzido pelo IBRAM e apresentado na TVE e TV Brasil, em 2012, temos que:


“O conjunto arquitetônico religioso, propriedade de Província da Imaculada Conceição da Ordem de São Francisco de Assis, consta de duas partes distintas:
“Convento e Igreja de Nossa Senhora dos Anjos ou Santa Maria dos Anjos cedido ao IPHAN através de convênio firmado em 12 de março de 1968 entre o Arcebispo de Niterói e a Diretoria de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional com a finalidade de instalar nas ruínas do primitivo Convento um Museu de Arte Religiosa, cabendo ao IPHAN a responsabilidade de manutenção e conservação do mesmo.
Capela e Cemitério da Ordem Terceira de São Francisco da Penitência, administrados pela Fraternidade de S. Francisco da Penitência (Fraternidade local da Ordem Franciscana Secular), cabendo a esta Fraternidade a responsabilidade de manutenção e conservação desta parte.”

Da mesma forma, sabe-se que “Todo o conjunto inclusive o Cruzeiro em frente, foi tombado em 17.01.1957,tendo sido estendido ao adro e todo o Largo de Sto Antônio e o Morro da Guia em 18.11.1966; possui também tombamento municipal de 28.11.1989”, o que pode ser comprovado através do Guia de Bens Tombados (IPHAN, 2009):

Convento e Igreja de Nossa Senhora dos Anjos, cruzeiro em frente, capela e cemitério da Ordem Terceira de São Francisco

Nome atribuído: Convento e Igreja de Nossa Senhora dos Anjos, Capela e Cemitério da Ordem Terceira de São Francisco

Outras denominações. Convento e Igreja de Santa Maria dos Anjos

Nº Processo 0447-T-51

Livro Belas Artes Nº inscr.: 436 ; Vol. 1 ; F. 082 ; Data: 17/01/1957

OBS.: “A inclusão da capela e do cemitério da Ordem 3ª de S. Francisco se fez em 15/12/1958, em virtude de despacho no Processo nº 447-T. O tombamento foi estendido ao adro e a toda a área atualmente livre à sua frente, inclusive todo o Largo de Santo Antônio e Morro N.Sra. da Guia, com faixa de proteção na planície de 100 metros a sua volta, mantida como área non-aedificandi ( Res.do Conselho Consultivo, de 18/11/1966."

"O tombamento inclui todo o seu acervo, de acordo com a Resolução do Conselho Consultivo da SPHAN, de 13/08/85, referente ao Proc. Administ. nº13/85/SPHAN".

Em termos construtivos, tomando-se por base as fotos que mostram o imóvel quando de seu período de arruinamento, pode-se perceber que ele é feito de alvenaria estrutural em pedra, sistema que induz a que se façam poucas aberturas.

A cobertura é feita de telhas de capa e bica, amarradas com arame, aparentemente de aço, conforme se pode observar abaixo:

A capela ainda apresenta seu forro original, em formato de gamela, que conta com pinturas.

Porém, a principal característica do imóvel é sua compartimentação, seja espacial ou temporal.

Em termos espaciais, o fato de que o mesmo prédio é ocupado por duas entidades distintas suscita algumas situações peculiares, como prova a foto abaixo, em que o escoramento de um arco, entre as duas naves das capelas, funciona, também, como obstáculo fronteiriço entre as duas ocupações.

Vista da Capela da Ordem Terceira, tomada da área escorada, na passagem desta para a Capela do Museu.

Do ponto de vista temporal, a reconstrução da ala esquerda propiciou que todo o seu segundo pavimento, assim como o telhado, seja oriundo de intervenções recentes, introduzindo técnicas de alvenaria, bastante distintas das observadas anteriormente.

Da mesma forma, assim o são os acréscimos realizados na parte dos fundos dos terrenos, tanto um de caráter permanente, como outro, com aparente intenção efêmera:

Barracão de antiga obra recebe melhorias e persiste à suposta desmontagem, servindo atualmente de depósito.

Edícula em que se adaptaram banheiro e cozinha, e onde se encontra a instalação de gás de botijão. Vale observar que o arco argamassado que se vê na foto, embora tente se remeter à construção original, não se faz verificar nas fotos contemporâneas ao período em que o convento se achava em estado de arruinamento.

Pelo contrário, colado à edificação remanescente, pode-se ver um contraforte vazado por uma pequena passagem, com verga em arco pleno, que deveria funcionar à maneira de um arcobotante.

O arco abatido, que se vê atualmente, uma intervenção contemporânea, portanto, mais confunde a leitura do prédio original, do que ajuda a recuperar sua feição.

Assim, a parte do edifício ocupada pelo Museu compõe-se basicamente de dois pavimentos (térreo e superior) e mais dois níveis de pés direitos baixos, que dão acesso aos sinos.

Mesmo estes pisos, que em princípio seriam apenas parte da circulação vertical, vêm tendo uso permanente.

Ainda segundo Tavares (op.cit.), “o Museu conta com uma sala de exposição, que abriga permanentemente o acervo religioso; uma sala para exposições temporárias, onde são mostradas, além de exposições didáticas, obras de artes plásticas, em geral de artistas da região e outras localidades”.

De fato, atualmente, apenas o pavimento térreo vem tendo acesso público, e, portanto, apenas exposições temporárias têm visitação, conforme folheto abaixo, referente à exposição que acontecia na ocasião em que este relatório estava sendo elaborado.

O pavimento superior, onde se encontra o acervo religioso tombado, por razões de diversas precariedades do prédio, como se verá adiante, não recebe visitação.

Na igreja conventual, inserida no Museu, (Tavares, op cit) “são celebradas, pelo calendário oficial do Museu, as missas de Santa Maria dos Anjos, São Francisco, São Joaquim, Santo Antônio e São José”.

Esta prática religiosa foi, entretanto, interrompida. Gomes Júnior, em sua entrevista, afirma que as missas já não mais ocorrem há décadas, informação corroborada pela atual Diretora da instituição, acrescentando que, embora a cessão do espaço seja uma das cláusulas do comodato, não tem havido interesse por parte das autoridades eclesiásticas locais, conforme “expresso pelo pároco da cidade Padre Marcelo Chelles”.

Lembra ainda que a capela, além de ser um espaço expositivo dos próprios elementos integrados da igreja serve também como espaço para as mais diversas atividades culturais, como palestras, seminários, apresentações musicais - o museu tem um projeto intitulado "Música no Convento.

A capela é um espaço multifuncional que serve de palco as mais diversas atividades do museu, como o Coral que ali realiza seus ensaios, conforme a imagem a seguir.

Sobre o belo retábulo, que se pode observar ao fundo da nave, na imagem anterior, Oberlander (1994), citando Lygia Martins Costa, diz que: “parece ter a mais antiga arquivolta salomônica recoberta de parra do país”.

Para a autora, o retábulo pode ser “considerado de espírito renascento-maneirista, possio colunas torsas cobertas por videiras, introduzidas no Brasil pelos jesuítas no final do século XVI e usadas durante o século XVII, principalmente por outras outras religiosas. A atipicidade de sua talha vazada com motivos fitomorfos, mais predominantes, e zoomorfos encontrados da árvore da vida (7 pássaros), localizada no corpo central, torna-a ímpar”.



BIBLIOGRAFIA:

Gardel, Luis D. – “Brazil”, Andermam Verlag, Munique, 1969.

Finageiv, Belmira (org.) – Entrevista com Edgard Jacinto, in “A Cidade de Cabo Frio”, Ministério da Cultura, 1994.

____________________ - Tavares, Dolores Brandão, “O Convento de Santa Maria dos Anjos e o Museu de Arte Religiosa e Tradicional” op cit. 1994

____________________ - Oberlaender, Magaly, “Os retábulos e a história da arte religiosa” , op cit. 1994.

OUTRAS FONTES:

Áudio original: CONHECENDO MUSEUS - Museu de Arte Religiosa e Tradicional de Cabo Frio. Produção: TV Escola / EBC / Ibram / FJPN / TV Brasil, 2012

Entrevista com Manoel Vieira Gomes Júnior – arquiteto, Chefe do Escritório Técnico do IPHAN RJ em Cabo Frio – de fev..2006 a outubro 2009.

Guia de Bens Tombados – Quinta Edição – www.iphan.gov.br – IPHAN 2009

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